quarta-feira, novembro 29, 2006

Inconstante

Não sou como os outros,
Como esses que passam gloriosos todos os dias
A sorrir e a acenar… irónicos
Falsidade escondida entre rendas e brocados
E lindos sapatos de cetim,
Fantasmas que pairam no ar
De uma realidade inconstante, imaginária.
Senhoras de lindos retratos que ousaram
Um dia sair deles, e pavoneiam-se pelas ruas.
Essas ruas que desconheço, porém que me reconhecem.
E escondem-se de maldade…que seja, não importa
Passo e sigo adiante, sinto dedos tocarem-me
E insultarem-me em segredo… “olha lá vai ela…
A impura, a inconstante…” que mais valia tem as suas vidas?
Nada mais que a minha, lindos vestidos de veludo
Pendurados delicadamente em corpos escanzelados de ganância
Cabelos perfumados num misto de jasmim e audácia,
Por vezes confundida com dignidade…
Não são melhores que eu… a inconstante,
A que não se resigna, a que não obedece, a que não pertence
A nada nem a ninguém, a que passa e não sorri…nada diz
Porém para quê? Também por mim o tempo passou
Meus finos traços estão gastos, perdidos para sempre,
Meus olhos não são meus, estão negros…sós, e abandonados
Minhas roupas não são bordadas de doces carinhos, mas arrastam pelo chão
O sofrimento de uma vida inteira…
Também eu num dia longínquo tive lindas vestes perfumadas,
Bordadas a oiro, de cores belas e vibrantes… e também eu dancei
A dança da vida em lindos palácios de sensações, porém tudo se
Desmoronou e fiquei confinada à clausura eterna, neste templo
De amargura e desprezo que me consome dia após dia,
Até nada restar, e passar novamente pela rua e ouvir
“Lá vai ela, a inconstante…!”

segunda-feira, novembro 20, 2006

Piano


Permito-me a amar a sentir,
A fraquejar se for necessário
Não lamento os sonhos só as lágrimas
Frias marmorizadas dentro do meu peito,
Permito-me tudo ou quase se o sentir…
Se o puder sentir… a vida já não me conhece,
Reconhece-me apenas por piedade.
Terei perdido a dignidade?
Não me relaciono com as pessoas,
Desconheço-as mesmo ao conhece-las,
Neste círculo viciado de vontades
Inconstantes e incansáveis.
Posso rir, quem me condena?
Talvez tu…vida, mas tu conheces-me,
Foste minha mentora estes anos a fio.
Perdi… reconheço que perdi,
Já nem o gosto da terra sinto nos lábios…
Sinto que não pertenço aqui,
Esta realidade não é a minha…
Os sonhos já não me pertencem,
Desvanecem ao som do vento…
O vento esse sim pertence-me, é como eu,
De todos e de ninguém…não me condena
Ampara-me e guia-me neste negro cabaret de futilidades.
Serei cruel? Inconstante, louca até…
Podem dizê-lo pois não me importo.
Estou perdida, sem rumo… sem voz nem corpo…
Sou só alma, essa sim é eterna, fiel, constante…
Ouço ao longe o piano tocar,
Recordações cravejadas na pele, imortais…
Como tocas… não pares, não pares de tocar…
O chão está frio, as paredes do quarto gemem baixinho,
Balbuciando palavras inaudíveis de angústia,
Sei que choram por mim… por nós…
As janelas estão escondidas com panos negros,
Renego ao amor, à luz ao sol, a tudo o que for vida…
Vou adormecer, espero que eternamente…
Não pares piano, não pares de tocar…!
(Todos os textos/poemas publicados neste blog são de minha autoria.)

sábado, novembro 11, 2006


A vida corre apressada, qual louca,
os sonhos adormecem-me os dias
para a saudade não ser tão dolorosa, e o amor…
vai cantarolando
o dia do teu regresso...